
Geriatra entende que manter-se em
atividade é a principal receita para que o idoso tenha uma vida saudável
São Paulo – O Brasil caminha a passos
largos para ter uma das maiores populações idosas do planeta. De acordo com
dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 13 anos o país
ocupará o sexto lugar no ranking daqueles com maior número de idosos. Hoje, 10%
da população brasileira, cerca de 15 milhões de pessoas, tem mais de 60 anos.
Em dez anos, esse número vai dobrar.
Segundo o geriatra Luiz Roberto Ramos, após os 60 anos a maioria das pessoas
terá ao menos uma doença crônica e o que vai determinar a saúde nessa faixa
etária é a capacidade de o idoso ter uma vida autônoma.
Ramos, que é diretor do Centro de Estudos
do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordena o Departamento de
Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta
que o país precisa se preparar para cuidar da saúde de seus idosos, inclusive
formando mais médicos especializados. A entrevista foi concedida à repórter
Marilu Cabañas, da Rádio
Brasil Atual.
Como o senhor analisa o rápido crescimento
da população idosa no Brasil?
O que está ocorrendo no Brasil não é só um
envelhecimento populacional nos moldes do que foi observado em outros países
anteriormente, mas é um processo muito mais acelerado por conta do fato de que
o Brasil está envelhecendo já com algumas questões bastante resolvidas, como
anticoncepção, porque para uma população envelhecer precisa cair a fecundidade
dessa população.
O Brasil está envelhecendo, porque não só
o brasileiro está vivendo mais, mas as mulheres estão tendo menos filhos. Na
medida em que entram menos crianças na população, começam a sobressair os
idosos. Esse é o processo de envelhecimento. Na época em que a Europa
envelheceu a gente não tinha mecanismos de controle da natalidade, a coisa era
feita mais na base do calendário e, mesmo assim, houve envelhecimento.
No Brasil, quando isso acontece, no final
da década de 70, começa a cair a fecundidade já com os métodos
anticoncepcionais bastante desenvolvidos. Foi uma queda muito mais rápida e
muito mais intensa fazendo com que esse processo todo no Brasil fosse bastante
encurtado. Nós estamos envelhecendo na metade do tempo que a Europa envelheceu.
Qual é a idade média do idoso brasileiro?
A idade média do brasileiro hoje está em
75 anos. As mulheres vivem sempre um pouco mais que a média, os homens sempre
um pouco menos. Podemos dizer que o brasileiro ganhou nos últimos 50 anos quase
30 anos a mais de vida. Essa é uma equação complicada, porque mexe com o
planejamento de vida das pessoas. Em pouco tempo, as pessoas passam a
administrar 20, 30 anos a mais de vida e isso tem uma série de implicações até
para o sistema da Previdência Social.
Quem é o idoso brasileiro? Como
identificar essa população?
Do ponto de vista demográfico, chamamos de
idosas as pessoas com mais de 60 anos. Alguns países da Europa mais
desenvolvidos identificam o idoso com mais de 65 anos. Na Escandinávia, por
exemplo, um idoso é um individuo com mais de 70 anos, porque muitas pessoas
atingem essa idade em boas condições de saúde, fazendo com que as
peculiaridades da velhice fiquem sendo empurradas para frente.
Então o parâmetro nesse caso é a saúde?
O parâmetro é a conservação das pessoas.
Em países como a Suécia eles estão preocupados com a população com mais de 70
anos, embora você possa dizer que uma pessoa com mais de 60 é idosa. Eles
identificam a população de atenção com mais de 70 anos. No Brasil, a gente
ainda trabalha com a noção de que idosos são os indivíduos que têm mais de 60
anos e que hoje representam cerca de 10% da população, ou seja, 15 milhões de
pessoas.
O que nos preocupa é que em menos de 10
anos essa população vai dobrar e nós vamos ter 30 e tantos milhões de idosos no
Brasil. Aí sim, vai ser uma população grande, uma das maiores do planeta, e que
vai ter que ser cuidada.
Quais são os estigmas relacionados aos
“velhos”?
O único jeito de você não ficar velho é morrer
cedo, então essa inevitabilidade tem um lado positivo. Os brasileiros estão
vivendo mais, mas todo mundo recusa um pouco a ideia de envelhecer porque
associa envelhecimento com decrepitude, no sentido das pessoas ficarem
fragilizadas e principalmente se tornarem velhos dependentes e incapazes de
tocar a sua própria vida.
Algumas pessoas vão envelhecer com perda
funcional e consequentemente vão se tornar dependentes no dia a dia, mas elas
são a minoria. A grande maioria das pessoas envelhece capaz de administrar a
própria vida. No entanto, a gente tem que ter presente que a ocorrência de
doenças crônicas é quase que inevitável ou seja, após os 60 anos a grande
maioria das pessoas vai ter pelo menos uma doença crônica, seja pressão alta,
diabete, catarata, um problema cardíaco.
Mas isso não quer dizer que ela vai ser
uma pessoa limitada, dependente. Significa sim, que ela vai ter que administrar
diariamente uma ou mais doenças crônicas que são inevitavelmente desenvolvidas
na medida que os anos passam. O que é evitável é o individuo perder função,
perder capacidade de tocar a vida de forma independente.
Esse é o foco principal das pesquisas que
a gente realizou durante todos esses anos, ou seja, saúde na velhice é a
manutenção da função suficiente para o individuo ter uma vida independente,
autônoma. Esse é o novo conceito de saúde.
Aquele idoso que vive sozinho, que se vira
sozinho.
Ele é capaz de viver sozinho porque ele
consegue realizar as atividades que todo mundo faz, como se vestir, tomar
banho, comer, fazer compras, cuidar das finanças, enfim, manter a sua casa e a
sua família sem precisar de ajuda específica de ninguém. Esse indivíduo pode
ter várias doenças. Tenho uma conhecida, a dona Clemência, que tem 90 anos e
mora sozinha. Toma seus remédios, mas não depende da família para a própria
sobrevivência.
Eu costumo dizer que viver sozinho na
velhice, não é para quem quer, é para quem pode. É uma conquista você poder
depois de uma certa idade, ter capacidade funcional suficiente para viver
sozinho. Dá para você ser saudável na velhice e, ao mesmo tempo, tomar remédio
para pressão, diabete, e isso não comprometer a sua saúde global.
Qual a receita para um envelhecimento
saudável?
Primeiro, se manter ativo é uma grande
ajuda para todas as pessoas depois da suposta idade da aposentadoria. A outra
coisa é o próprio “viver sozinho” que estimula o indivíduo a se manter
independente e capaz de realizar tudo que ele precisa durante o dia. E
terceiro, ter claro o benefício de fazer atividade física. Um bom exemplo de
manter a saúde funcional é permanecer ativo do ponto de vista laboral e do
ponto de vista físico e mental.
O mercado de trabalho no Brasil está
aberto à terceira idade?
Ainda não da mesma forma que se observa na
Europa, onde já existem políticas bastante explícitas de recontratação e
pessoas aposentadas podem ter determinadas funções que não demandam muita
agilidade física, mas demandam comprometimento. É um mercado que se abre para
idosos.
No Brasil, algumas áreas já identificam
nos idosos pessoas mais confiáveis, com responsabilidade maior nas suas funções
e que, portanto, atrairiam contratações apesar da idade e do fato de já serem
aposentados em outras funções. Mas acho que é uma coisa que o Brasil vai
precisar desenvolver mais. É um campo de trabalho para pessoas que já se
aposentaram em alguma função e que ainda tem condições físicas e mentais de
servir a sociedade.
Quais são os direitos dos idosos no
Brasil?
Existe um Estatuto do Idoso bastante
desenvolvido, com uma série de direitos nem sempre acessíveis a todos, pelo
menos no momento. Nós vivemos num país com problemas econômicos, desemprego.
Nessa disputa é óbvio que os idosos que necessitem de uma atividade laboral
para fins econômicos certamente vão ter alguns problemas, porque esse mercado
não está desenvolvido.
Agora, a própria necessidade de precisar
trabalhar nessas idades já coloca esses indivíduos em uma situação de mais
risco, porque eles certamente vêm de uma situação carente já de mais tempo. Mas
o ideal é que as pessoas se mantenham ativas, sem a premência econômica, ou
seja, terem uma aposentadoria mínima para poderem viver e trabalhar para
melhorar essa situação e não como única alternativa.
Fonte: Rede Brasilactual
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